sexta-feira, abril 20, 2007


Como é que se usa um telemóvel? Ou um telefone, para ser o mais genérico possível? O uso que eu dou ao telemóvel não é muito saudável. Supostamente deveria ser o uso correcto, pois mal toca, vou em sua busca, independentemente do que esteja a fazer. Será este o uso correcto? Não, definitivamente não é. O telefone é um acessório do nosso dia-a-dia. Existe para facilitar algumas coisas, não para condicionar os nossos dias. A Paula sabe utilizar o seu telemóvel. Atende apenas quando está disponível para isso e por isso irrita muita gente inclusivé a mim. Mas na verdade ela está coberta de razão. Porque é que se deve atender sempre um telemóvel, mesmo que não nos apeteça? E porque é que as pessoas ficam chateadas pela sua chamada não ter sido atendida? Estamos de tal forma condicionados por estes espartilhos de hábitos sociais que muitas vezes quando toca o telefone e não nos apetece atender, forçamo-nos a nós próprios a perder tempo de vida com aquela chamada, não porque necessitamos, mas com o medo que a outra pessoa fique ofendida. Eu automaticamente penso assim e muitas vezes dou por mim a julgar a paula, incorrectamente, pelas suas opções de liberdade quanto ao telemóvel. Na verdade nem sequer são opções de liberdade... nem sequer é uma opção, é apenas a forma como encaramos e queremos encarar a nossa forma de viver, o ritmo que queremos impor ao nosso modus-vivendi, e o ritmo da paula é que está correcto. A tirania do telemóvel está a chegar ao fim. Embora importante para a nossa vida, ele não deverá ser essencial. Não é fácil acabar com esta tirania, mas temos de fazer um esforço para que a nossa vida se torne um pouco melhor, um pouco menos stressada.

O João Pedro anunciou ontem aos pais que está à espera de um filho. Mais um primo para o Afonso e a Carolina. deverá nascer em Novembro. Estamos muito contentes.

Despedimos o carpinteiro. Ainda falta colocar as portas, ferragens e acabar uma parte do deck exterior. Acabou-se a paciência. Foi posto na rua e não vai ver nem sequer mais um tostão. Apesar de tudo ficou-nos barato os seus serviços, mas se formos ver os danos de tempo e paciência que este sujeito nos provocou saímos claramente a perder. Será que não existem empreteiros e homens das obras sérios? Tem de existir.

A cozinha ficou pronta no início da semana. Lindissíma, branca co brilho tipo branco iPod e com todas as funcionalidades pensadas ao pormenor pela paula. Por exemplo, a tábua de cortar pão está inserida dentro de uma gaveta com um recipiente próprio para isso. Acaba-se de cortar o pão fecha-se a gaveta e puff. Nada de migalhas, nem coisa espalhadas. São estes tipos de detalhes de ergonomia que a paula é fantástica a pensar.

Já temos o nosso novo iPod de 80GB. Estou em fase de passar toda a nossa música do anterior para o novo. Menos versátil em termos destes procedimentos, infinitamente mais bonito e poderoso que o anterior da creative.

Como pensamento positivo para hoje deixo o iPod. Ainda estou a aprender a trabalhar com ele, mas parece-me estupendo e fora de série. E impressionamente a capacidade destas novas geringonças que nos permitem ter uma discoteca de cerca de 1500 albúns num dispositivo daquele tamanho. Este aparelho está a mudar a face da indústria musical. Não são só as editoras e as lojas de música que estão ameaçadas. São também os fabricantes de CD's. Isto está a levar uma grande volta. Sem dúvida, juntamente com a nespresso, um dos principais ícones desta primeira década do século XXI.

quarta-feira, abril 18, 2007


Acabei de escrever o meu primeiro conto. Foi um desafio lançado pelo CineClube de Terror de Lisboa para escrever um conto de terror.

Ainda não está perfeito mas foi o meu primeiro ensaio. A trama não está muito bem sacada e vive de alguns lugares comuns que me irritam.

Fica aqui para a posteridade e sujeito à apreciação de quem quiser. Comentários e sugestões são muito bem vindos (Edgar Pó foi o pseudónimo que escolhi, fazendo naturalmente um tributo ao grande mestre destas andanças - Edgar Alan Poe).


Type O Negative
por EDGAR PÓ


O meu nome é José Carlos Teia e eu estou... aterrorizado!
Já lá vão 47 dias desde que estou encerrado neste quarto e a única forma que eu tenho de comunicar com o mundo exterior é através desta via. Todas as outras vias de comunicação foram cortadas e como companhia restam-me alguns enlatados, um computador antiquado, um poster de parede dos Type-O- Negative e uma cadeira barcelona, que não me serve de nada, pois não tenho mesa para colocar o computador.
Mas vamos começar desde o início, para que compreenda a minha agonia e para que eu lhe dê alguns argumentos que sustentem a sua decisão de ajudar, ou se for tarde de mais, de revelar ao mundo a minha infeliz história para que ela não se repita com mais ninguém, pois nenhum ser humano deve ser sujeito a este tipo de pressão, a esta agonia que se apoderou de mim e que me drenou de todas as emoções, de toda a lógica.
Tudo começou à cerca de dois meses. Estava uma manhã lindíssima, cheia de sol e depois de tomar o pequeno-almoço com a minha mulher e os meus dois filhos gémeos, dirigi-me para a paragem de autocarro do costume, para apanhar o autocarro nº 74 em direcção à estação de comboios. Entre apanhar o comboio e o meu local de trabalho medeiam cerca de 35 minutos que costumo investir na leitura, nunca perdendo de vista a paisagem que desfila na janela e as pessoas que partilham comigo estes espaços móveis.
Esta é a minha rotina habitual que faço desde há mais de 10 anos para chegar ao meu emprego. É uma rotina que prezo e que de alguma forma me relaxa antes de me dedicar às minhas obrigações profissionais e familiares. É aquele momento em que não tenho necessidade de encarnar um papel ou de fazer as coisas por forma a agradar a quem está à minha volta. Todos os dias encontro e reencontro pessoas que desfilam à minha frente de uma forma descomprometida, sem preocupações além de apanhar os transportes às horas certas, para chegar a tempo aos seus empregos e então assumir as suas personagens construídas ao longo de anos que lhes garantem um determinado espaço nas suas realidades. Durante estes percursos estas pessoas, e eu próprio, não existimos. Estamos em transicção para as nossas vidas que começam realmente dentro de momentos. É uma espécie de limbo, de hall de entrada para um palco à nossa medida.
Com o passar dos tempos, aprendi a gostar destes momentos. Tenho uma profissão moderna, com relativo sucesso e numa empresa jovem, muito dinâmica e sem grandes preocupações de horários ou formalidades, por isso, consigo desfrutar destes momentos de uma forma muito própria, muito minha.
Nessa manhã, reparei no condutor do autocarro. Era um jovem com um olhar vivo e uma expressão simpática. Tinha uma postura orgulhosa como que a cortar com todos os estereótipos construídos à volta desta profissão. Era bonito, mas não o suficiente para se reparar, o que fazia dele uma pessoa agradável. Não consegui deixar de notar nele por estas razões e pelo facto de a sua cara não me ser estranha. Na altura eram pensamentos momentâneos que se apagam a partir do momento em que atingia a parte de trás do autocarro para conseguir um lugar vago.
Até aqui, nada de estranho se passou e nenhuma razão existe para que fique aponquentado, mas por favor, continue a ler. Não pare de ler, pois preciso desesperadamente da sua ajuda...
Quando entrei no comboio é que as coisas começaram a ganhar uma dimensão estranha. Sentei-me, como de costume, na segunda carruagem, no sentido inverso da locomoção do comboio e peguei no meu livro para devorar mais um capítulo. Após o comboio ter iniciado a sua marcha, 2 minutos depois, veio o revisor verificar o meu título de transporte. Já o tinha a postos por forma a ser revelado sem tirar os olhos do meu livro, mas naquela manhã, olhei nos olhos do revisor e para meu espanto a sua cara pareceu-me idêntica à do condutor do autocarro. O mesmo olhar, a mesma postura, o mesmo orgulho. Dei um salto no assento como que assustado, razão para que o revisor fizesse precisamente o mesmo, assustado com a minha reacção. Fiquei paralisado. Sem saber o que fazer. Ele perguntou-me – “o seu bilhete por favor” – ao que imediatamente lhe revelei o meu passe de uma forma mecânica, mas sempre com os olhos colocados nos olhos dele. Verificou o passe e de seguida perguntou-me, tal era a minha expressão – “Está tudo bem? Passa-se alguma coisa consigo?”
A voz custou-me a sair e quando se materializou, retorqui-lhe – “A sua cara não me é nada estranha. Peço-lhe desculpa pela minha reacção, mas deu-me a sensação que o tinha visto agora mesmo a conduzir um autocarro”.
As suas sobrancelhas franziram-se e respondeu-me – “É possível que me tenha visto no autocarro, mas certamente que não ao volante e isso foi cerca das 7 da manhã”. Sorriu e eu, de imediato, pedi desculpa pela confusão antes de ele seguir caminho para o próximo passageiro.
Continuei preplexo, convencido de que me tinha enganado e inclusivé esbocei um sorriso por forma a afastar esta nuvem de dúvida, sorriso esse que se esbateu no momento em que olhei para o meu passe e constatei que estava escrita uma mensagem num vermelho tipo sangue com os números 7 e 4 desenhados de uma maneira tosca. Ainda olhei em direcção do revisor que no momento atravessava de uma carruagem para outra através da porta que as separa. Reparei que esboçava um sorriso enquanto atravessava a porta.
O meu primeiro impulso foi levantar-me a correr atrás dele, mas depois o medo apoderou-se de mim e transformou as minhas pernas em dois barrotes de chumbo impossíveis de serem movidas. Tentei acalmar-me e convercer-me de que nada disto era real, mas ao olhar de novo para o passe e constatar nos dois números desenhados, inundou-me um sentimento de terror que me tem perseguido até a este momento em que lhe escrevo esta mensagem.
O dia passou-se normalmente sem mais acontecimentos dignos de registo, mas eu estava esfrangalhado. Não consegui pensar em mais nada. E mais catastrófico se tornou quando tomei consciência de que os números que estavam no passe correspondiam aos números do autocarro que eu normalmente apanhava – o nº 74. Seria uma mensagem subliminar para eu apanhar o autocarro na volta, ou uma simples coincidência? Que haveria eu de pensar desta ocorrência? Estaria a exagerar? Estaria a ficar louco? Os acontecimentos seguintes iriam revelar e clarificar toda esta confusão que me levou a este estado miserável.
Tentei concentrar-me no meu trabalho, mas não consegui. Não me saía da cabeça o momento de sair do trabalho, meter-me no comboio, sair na estação e apanhar aquele misterioso autocarro. Mas o que mais me irritava era a sensação que se apoderava de mim, de que tudo isto era um engano, uma coincidência que eu estava a transformá-la em algo extraordinário, algo que apenas acontece nos filmes e nas histórias de terror e mistério. Poderia ser uma defesa para a minha rotina diária, uma necessidade de criar alternativas ao “ram-ram” do meu quotidiano. Mas esse cenário, a acontecer, tomava a forma de um cenário doentio, pois este bocado da minha vida, esta transicção entre vidas, era um momento que eu prezava e que ansiava todos os dias da semana. Bom, por vezes, fazemos coisas comandadas pelo nosso subconsciente que são contrárias à nossa vontade, mas como irá ver mais à frente, tal não era o caso. Havia, de facto, razões para me preocupar e agora estou aqui, acossado e aterrorizado, muito por culpa de não ter tomado atenção a estes sinais.
Bom, mas voltando ao que interessa. O dia acabou e ao longo dele consegui dissipar muitos destes anseios, destas premonições geradas por aquela misteriosa personagem, de tal forma, que por volta das sete horas da tarde, hora a que habitualmente saio da empresa, aquele momento de terror foi adquirindo contornos quase cómicos e o que de manhã tinha sido um evento estranho, ganhou um estatuto de coincidência cómica no fim da tarde. Mas havia algo que me incomodava, algo que carecia de uma explicação lógica e que me deixava incómodo, irrequieto e desconfortável, muito desconfortável.
A caminho da estação, passei pelo café onde habitualmente almoço e em vez de seguir caminho, parei para tomar um café e comer uma chamuça, coisa que nunca faço. Deverá compreender que sou um homem de rotinas e que para mim elas são, na verdade, o sal da minha vida. Gosto de roteiros diários traçados ao milímetro e de os cumprir escrupulosamente, mas de uma forma natural, não compulsiva, por isso parar, ao fim da tarde, no café para beber um café, foi um acto de absoluta originalidade para mim. Mas não foi inocente ou impulsivo. Foi, na verdade, um acto de quase cobardia. Eu estava com medo de encontrar o revisor-condutor de autocarro novamente, por isso tinha que quebrar a minha rotina por forma a não me cruzar com ele. Na altura estes pensamentos não eram claros para mim. A vontade de beber um café e comer uma chamuça pareciam-me reais e genuínos, mas lá no fundo eu sabia que tinha de reagir e evitar um encontro como aquele encontro matinal durante o qual o meu passe ficou manchado com o número 74. A propósito, o meu passe continuava a ostentar esse número. Não o consegui apagar, não porque tentasse, mas por receio de que algo acontecesse, voltei a meter o passe no bolso e não pensei mais nisso. Um misto de medo e curiosidade assaltava-me e quis manter o número para que todos os meus sentidos tivessem alerta aquando do momento da volta, este preciso momento que agora lhe estou a contar.
Sai do café sem pressa nenhuma e dirigi-me para a estação dos comboios. Até lá chegar são cerca de 10 minutos a andar e desta vez fiz este trajecto na maior das calmas, observando todos os pormenores que fazem parte daquele caminho que faço pelo menos 2 vezes por dia ao longo dos últimos dez anos. Consegui chegar à estação precisamente 3 comboios a seguir ao que normalmente apanho e quando avistei o comboio ao funda linha, senti um pequenos aperto no coração. Será que ia cruzar-me com o sujeito?
O comboio deu entrada na plataforma e as portas escancaram-se à minha frrente à espera de serem abertas. Respirei fundo e sorri para mim mesmo. As portas abriram e entrei de olhos fechados dentro da carruagem. Procurei um lugar vazio e reparei que todos os lugares estavam tomados, de forma que tive por optar pelos bancos junto à porta da entrada da carruagem – refira-se que apesar de parecer uma situação normal, nunca me tinha ocorrido a esta hora, uma vez que eu faço o trânsito ao contrário. Mas como tinha apanhado um comboio a uma hora que habitualmente não apanho, na altura encarei como normal.
A viagem decorreu normalmente, sem qualquer incidente. Ninguém se manifestou e inclusivé não apareceu nenhum revisor a verficar os títulos de transporte. Foi simultaneamente um alívio, mas com uma pontinha de frustração. Há qualquer coisa dentro de nós que numa situação de ansiedade dispara um botão de alarme para que as coisas se resolvam rapidamente mesmo que implique algum risco. Era disso que eu estava à espera. De encontrar uma solução para o estranho acontecimento matinal. Mas tal não aconteceu. Estavamos a chegar à estação terminal e nada. Mas nada mesmo...
Agora impunha-se a confrontação com uma nova situação. Apanhar o 74 em direcção a casa. Não esqueçamos que o condutor do autocarro e o revisor do comboio tinham semelhanças evidentes que me levaram a pensar que seriam a mesma pessoa, e também a marca deixada pelo revisor no meu passe era o número do autocarro que eu normalmente costumava apanhar. O meu primeiro impulso foi correr para a paragem do 74 e apanha-lo para chegar rápido a casa e se possível encontrar o mesmo condutor e tirar tudo a limpo. Na verdade já estava num estado de nervos com uma pitada de euforia à mistura que resultava numa situação de algum descontrolo emocional. Queria resolver isto. Queria chegar a casa com as minhas dúvidas dissipadas e contar o que se tinha passado a minha mulher e aos meus filhos. Queria acabar com isto de uma vez por todas, tal era o cansaço que se tinha apoderado da minha mente, resultante de um dia inteiro a pensar naquele breve encontro no comboio. Sabia lá eu no que iria dar. Pobre mim e já agora pobre de si que está a ler esta mensagem , pois caso opte por fazer alguma coisa irá meter-se na boca do lobo, ou se pelo contrário, não fizer nada vai viver o resto da vida na dúvida e com a consciência abalada por tudo aquilo que irá ler nestas linhas.
Decidi não apanhar o 74. Optei por outra paragem de autocarro, bem longe daquela, aliás, que me deixaria relativamente perto de casa, apesar de ter de andar cerca de 10 minutos a pé até atingir o meu destino.
Apanhei o 110, no lado contrário da praça de autocarros que fazia o trajecto inverso ao 74. Levaria cerca de 50 minutos nesta viagem ao contrário dos habituais 10 a 15 minutos que gastava no 74. Dissipei todas as minhas dúvidas, ou melhor, arranjei todas as desculpas possíveis para justificar a minha mudança de planos. Como já lhe referi anteriormente, as rotinas, para mim, são essenciais. São os meus pequenos vícios a que recorro para fazer dos meus dias, momentos interessantes. De tal forma isto cortava com a minha rotina que tinha de inventar todas as desculpas para justificar esta mudança de planos.
E assim foi... Apanhei o 110 para retornar a casa pelo lado errado da cidade. O autocarro, tinha cerca de 4 pessoas e com a confusão entretanto gerada dentro da minha cabeça, não tomei atenção ao condutor. E porque haveria de tomar? Era um autocarro diferente que estava a apanhar. Mais um erro que cometi ao entrar dentro daquele malfadado autocarro. Pobre de mim...
Esperei cerca de 3 minutos antes do autocarro iniciar a sua marcha, sentado no segundo banco do lado esquerdo da parte de trás do autocarro. À minha frente estava uma senhora a mandar mensagens do telemóvel e atrás de mim 2 crianças acompanhadas pelo pai observavam o terminal de autocarros com alguma supresa e entusiasmo à mistura. Deveriam ser de fora da cidade.
O autocarro iniciou a sua marcha e já eu estava agarrado ao meu livro. Subitamente, lembrei-me de que deveria tentar olhar para o condutor para ver se desta vez não se assemelhava ao meu suposto perseguidor matinal. E assim o tentei fazer. Estiquei o meu pescoço para ver se o conseguia vislumbrar através do espelho retrovisor e aí nesse momento, precisamente nesse momento, começou o meu calvário que me levou a este estado de absoluta decadência, medo... de absoluto terror...
Os destinos do 110 estavam entregues, precisamente ao revisor/condutor de autocarro que apanhei no meu trajecto matinal. Quis gritar, mas não me saiu qualquer voz pela boca e em troca recebi uma gutural gargalhada emitida pelo condutor. E o mais estranho era que ele nem sequer abriu a boca. A gargalhada surgiu na minha cabeça, assim, sem mais nem menos. Fiquei numa espécie de estado de choque incapaz de pensar ou agir. O autocarro entretanto enveredava por caminhos que não conseguia identificar e a paisagem através da janela deixou de ser nítida para se transformar numa espécie de visão da paisagem a derreter-se lentamente em tons de castanho e rosas que se misturavam numa espécie de morphing diabólico... Estava confuso, estava em pânico e totalmente paralisado, sem capacidade de raciocinar ou sequer de encenar algum movimento, alguma reacção naquele cenário Dantesco. Pensei que tinha desmaiado, tal era a violência daquela constatação, mas estava bem acordado, mas incapaz de ver, sentir ou reagir. Tudo estava em absoluta comoção naquele autocarro, naquela horrível nave que agora começava a atingir velocidades assustadoras com o vidro da frente a embater em formas horrososas que pareciam que ganhavam vida quando se esmagavam mesmo à nossa frente. Começa a entender o pânico pelo qual passei? Então tenha mais um pouco de paciência pois ainda estamos no início.
A voz gutural do revisor/condutor de autocarros estava dentro da minha cabeça, ecoando com um volume cada vez alto, mais infernal, no entanto traduzida apenas em sons insuficientes para fazerem qualquer sentido. Nesta altura reparei que a sua voz, desde a gargalhada inicial nunca tinha parado dentro da minha cabeça, no entanto com um volume baixo. Agora que o volume começava a aumentar é que dei pela sua presença, desde que constatei o terror em que estava envolvido. De tal forma atingiu um volume tão alto que tive que colocar as mãos na minha cabeça, a fazer pressão nas têmporas ao mesmo tempo que tapava os ouvidos. Solução insuficiente, pois ela estava dentro da minha cabeça. Gritei de tão insuportável que estava e virei-me para trás para acabar com aquele sofrimento atroz. Nesse preciso momento, a voz sessou e consegui abrir os olhos e de alguma forma recompôr-me. Pelas janelas já consegui descortinar uma paisagem, que embora desconhecida, tinha já um toque de normalidade o que me trouxe algum alívio. Nas parte de trás do autocarro continuavam as quatro pessoas que tinham iniciado a viagem comigo. Estavam a rir-se de uma forma estridente e pouco natural. Apontavam na minha direcção e os seus rostos estavam como que desfocados, difíceis de serem identificados. Percebi que durante o meu momento incial de terror se tinham juntado todos a um canto como que a assistirem à minha reacção e agora pareciam uns comentadores toscos que se banqueteavam com o que tinham visto.
No minha cabeça, a voz tinha desaparecido por completo e, embora com algum movimento oriundo das janelas, o autocarro já se locomovia de uma forma normal. Avancei em direcção dos meus espectadores como que a pedir ajuda, como que a pedir-lhes que eles tivessem sentido o mesmo que tinha acabado de sentir e assim pudesse encontrar algum consolo naquele cenário. Tem de entender que eu estava desesperado, muito assustado e embora seria evidente que algo estava muito errado ali e nunca encontraria consolo naqueles seres, a minha reacção de ir ao encontro deles foi de desespero, mesmo sabendo que eles nunca me ajudariam.
Fui cabaleando em direcção aquelas personagens e uma das crianças saltou do seu banco e colocou-se à minha frente sempre com um sorriso. Parei e aquela distância consegui reconhecer o seu rosto e naquele momento solto um grito chamando o nome de um dos filhos. Não foi um grito à toa, pois à minha frente estava a cara e a cabeça de um dos meus filhos gémeos, embora o seu corpo não correspondesse à realidade. Era um corpo pequeno, exactamente do mesmo tamanho do meu filho, mas as suas proporções estavam erradas. Os braços eram de um homem exremamente forte, com pêlos e veias salientes, enquanto as suas pernas estavam cobertas por um manto gasto e velho que deixava entrever o brilho do metal. Eram próteses não acabadas, apenas com o metal à mostra e cobertas de manchas de sangue que jorava da parte de cima onde acabava a carne.
Gritei pelo nome dele, não com uma intenção de alívio, mas de puro horror ao constatar o estado do meu filho. O meu grito despontou ainda mais gargalhadas nos outros passageiros que agora, de uma forma instantânea, ostentavam os seus rostos perfeitamente visíveis e identificáveis. Como deve estar a prever, eram os rostos do meu outro filho, da minha mulher e do maldito revisor/condutor de autocarro que a abraçava com um braço e com o outro afagava-lhe o seio. Riam altíssimo, desta vez com as bocas a corresponderem aos sons que pairavam no ar. No momento não conseguia distinguir se eram sons verdadeiros ou se ecoavam na minha cabeça tal como as anteriores gargalhadas do revisor/condutor.
Desmaei, penso eu, pois ainda hoje não consigo estabelecer uma linha de tempo coerente que batesse certo com tudo o que estava a passar no autocarro nº74.
Tudo o que eu estava a assistir era grotesco e de uma violência para a qual eu não estava preparado. Talvez até nem tenha desmaiado. Talvez tenha entrado numa espécie de black-out para reunir forças, por forma a encarar o que ainda estava para vir. Como lhe digo, reinava a confusão na minha cabeça e ainda hoje reina alguma, com alguns detalhes imprecisos, mas limados de uma forma a tornar perceptível a si, que está a ler esta infortunada aventura.
Acordei com frio, mas desta vez rodeado de escuridão num espaço muito amplo. Estava nu, agrilhoado a uma parede húmida. Estive assim cerca de duas horas, sem qualquer vislumbre do que me rodeava. Com os meus gritos percebi que estava num espaço amplo e estava tão bem preso à parede que não conseguia mover-me de forma alguma. Estava aterrorizado no início, mas ao fim de meia hora passei do estado de terror a uma espécie de resignação. Tinha de esperar pelo que me iria acontecer. Os gritos não estavam a sortir efeito e o frio que estava a sentir no meu corpo começou a substituir o medo que atravessava a minha mente. Estava desesperado, sem forças e rendido aquela miserável condição de vítima. Estava prestes a entrar em colapso quando subitamente senti um toque no meu peito. Ao mesmo tempo abriram-se as luzes daquele imenso espaço e à minha frente estava o revisor/condutor de autocarro empunhando o seu sorriso. As vozes voltaram à minha cabeça, mas com murmúrios impreceptíveis. Perguntei-lhe o que queria de mim e como resposta obtive mais barulho na minha cabeça e a sua mão a enterrar-se no meu peito a ponto de me extrair todo o ar. Quase que desmaei novamente. Retirou a sua mão e os murmúrios que ecoavam na minha cabeça começaram a fazer sentido. Dizia-me que eu era um ser humano desprezível e que não merecia estar vivo. Que tudo o que tocava ou passava-me pelas mãos tornava-se obsoleto sem interesse e que por isso deveria morrer, deveria deixar de existir e deixar espaço a outros seres humanos mais válidos. Disse-me ainda muito mais coisas à volta disto, mas que não me consigo lembrar bem, pois várias vozes começaram a falar em simultâneo na minha cabeça. Foi uma lenga-lenga de cerca de 20 minutos sempre a deitar-me abaixo e a reforçar a minha condição de ser humano desprezível e sem utilidade. Desisti de tentar ouvi-lo e baixei a minha cabeça em direcção ao chão. Estive assim cerca de 5 minutos até ele acabar a sua ladainha e quando as vozes cessaram na minha cabeça, o revisor/condutor de autocarro afastou-se a apontou para o centro do armazém. Como que por magia, começaram a aparecer imagens que eu reconhecia. Os rostos que se cruzavam todas as manhãs comigo desde há mais de dez anos, os lugares por onde passava todos os dias em direcção ao meu trabalho, os corpos dos meus colegas movimentando-se no escritório, os meus filhos e a minha mulher à minha espera em casa, preparando uma surpresa aquando da minha chegada. Foram boas imagens que me fizeram sorrir ao mesmo tempo que chorava. Foi um bom momento no meio de tudo o que estava a passar.
As imagens lentamente foram passando de 2D para 3D e subitamente, mesmo ali à minha frente, observei as imagens a ganharem vida e a transformarem-se em realidade no interior do armazém onde estava. As pessoas falavam entre si, os seus pés faziam barulho ao deslocarem-se, o burburinho do dia-a-dia ganhava forma ali mesmo à minha frente, como por milagre.
Subitamente, todos param e olham na minha direcção e aquilo que era uma representação fiel da realidade que me rodeava todos os dias, transformou-se numa outra coisa inexplicável. Todos me identificaram, apontaram na minha direcção e começaram a deslocar-se na minha direcção. A deslocarem-se não... a correrem e a atropelarem-se para chegar até mim. No meio daquela confusão toda, vi a minha mulher a ser engolida pela multidão e os meus filhos a serem espezinhados como se de baratas se tratassem... Gritei com todas as minhas forças pelo nome deles, mas os meus gritos foram engolidos pelos gritos raivosos da multidão que corria, atropelava-se na minha direcção. Ainda assisti a vários colegas e amigos meus a ficarem sem olhos, sem partes do corpo que desapareciam no meio daquela mole que ganhava dimensões biblícas e que cada vez mais estava perto de mim. Aquilo era demais para mim. Aquilo era um suplício que eu não merecia. Estava perto da loucura.
A multidão estava já perto de mim e eu gritava só por gritar, sem qualquer sentido, sem qualquer intenção. Só me restavam os gritos e aos gritos recorria para combater o meu terror. Para ter uma ideia do que eu estava a passar, o barulho feito por aquela multidão era tal, que não consegui ouvir os meus próprios gritos. À medida que se aproximavam, consegui perceber que se queixavam, que também eles estavam a maldizer a minha existência, a clamar pelo meu nome seguido de classificações horrorosas da minha pessoa, das minhas vivências e dos meus actos. Desisti de gritar, pois já me tocavam e já consegui sentir os dedos deles a cravarem-se na minha carne. Senti o embate de todos aqueles que avançavam para mim. Foi de tal forma forte que, mais uma vez, perdi a respiração e quase que desmaiei, novamente. Tentaram arrancar o meu corpo da parede e não conseguiram à primeira tentativa, tal era a forma como estava preso. Investiram novamente e desta vez elevaram-me no ar, pois este era o único movimento que aquelas presilhas me permitiam, apesar de estar suspenso. Neste movimento consegui vislumbrar por cima das cabeças dos meus atacantes, o espaço à minha volta. Dezenas de corpos jaziam no chão, despedaçados pela violência da caminhada até à minha pessoa. Não consegui ver os meus filhos e a minha mulher, pois todos os corpos estavam bastantes danificados. Senti o sangue a subir pela traqueia e a alojar-se na boca quando aquele violento sacão chegou ao limite. Os meus músculos cederam com o impacto e rasgaram-se nos braços. A dor foi tão insuportável que me fez desmaiar, finalmente.
Aquele horror tinha acabado e em sua substituição veio em meu socorro sonhos de uma vida normal, de rotinas intermináveis e de sorrisos dos meus filhos e da minha mulher. Tudo isto sem dor, sem terror, sem medo. Estava a sonhar. Estava em tranquilidade e estva em paz.
Como deve calcular, foi uma tranquilidade que durou muito pouco tempo. Acordei neste quarto, precisamente à cerca de 4 horas, tempo que levei a escrever este manuscrito que espero que esteja a ler com toda a atenção. Os meus braços estão doridos e o meu corpo coberto de sangue. Não sei o que me irá acontecer, nem sei como lhe explicar isto. Sei apenas que me aconteceu e que tudo foi muito real. Sei que o número 74 tem um qualquer poder inexplicável capaz de transformar a sua vida de um momento para o outro. O que é que pode fazer? Pode denunciar este estranho evento a alguém correndo o risco de o chamarem de louco? Faça como quiser, mas divulgue-o e, por favor, denuncie o autocarro 74, denuncie os loucos que o conduzem e todos aqueles que me obrigaram a mim e se calhar a muitos outros a passarem por este tormento, por esta agonia, por esta violência.
Ouço barulho no exterior. São passos curtos e bem ritmados. Não consigo mexer-me, tal são as dores do meu corpo. A porta abre-se lá ao fundo e vejo dois vultos pequeninos empunhando uma espécie pau com uns ganchos na ponta.
Aproximam-se e começam a falar comigo. Não me dou ao trabalho de responder. De tal forma estou resignado a esta condição miserável que nem sequer paro de escrever esta carta quando me apercebo que são os meus dois filhos retalhados, com uma mistura de metal e carne nos seus corpos. Ouço o ranger dos seus membros. Noto que nas suas mãos está um “mata-sérvios” originário da segunda guerra mundial. Estes sinistros instrumentos era utilizados nos campos de concentração da Croácia, durante a segunda guerra mundial, e serviam para os Croatas matarem os sérvios de uma forma atroz. A ponta destes instrumentos era composta por 3 ganchos pontiagudos desenhados para simultaneamente furarem os olhos ao mesmo tempo que o gancho inferior penetrava na garganta provocando uma morte tenebrosa. Os meus filhos avançam para mim com estes instrumentos em punho e eu nada posso fazer. Estão já muito perto e começam a correr. Sinto o primeiro embate, uma dor, gritos infantis de prazer, os meus olhos...
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Américo Seiva ficou estarrecido com o que tinha acabado de ler. Sorriu. Recostou-se na sua cadeira e ficou a pensar no triste fim que aquele indivíduo teve. Várias coisas não batiam certo. Porquê insistir no facto do leitor também ter um triste fim? Não havia uma justificação no conto para criar aquele momento de suspense, nem sequer um desvendar do porquê.
Não havia também uma justificação para a presença da família do personagem principal ao longo dos vários momentos da história. Começam por estar do lado dos maus, no autocarro, inclusivé com a mulher a ser apalpada pelo revisor/condutor de autocarro, depois aparecem no meio da multidão a serem esmagados e por fim são os próprios filhos que dão a estocada final com o “mata-sérvios”. A própria personagem que supostamente encarna o diabo também não é consistente. Aparece e desaparece e não justifica o porquê de colocar o personagem principal naquela situação. Não existe uma ponta para se agarrar o passado do personagem principal e de alguma forma justificar a punição que teve.
A menção à banda Type-O-Negative é por demais evidente num conto de terror e a trama até tem alguma graça quando desenvolvida no comboio e depois no autocarro. Mas quando passa para o armazém a coisa roça o piroso.
De qualquer forma foi um bom passatempo. Enquanto a história desfilava perante os seus olhos esteve concentrado e até gostou, mas o desenlace não foi brilhante, ou melhor, poderia ter sido se houvesse um desenlace com alguma justificação.
Havia, de qualquer forma, alguns pormenores estranhos. Américo tinha acabado de comprar bilhetes para assistir ao concerto dos Type-O-Negative. O nº74 era de facto o autocarro de apanhava todos os dias e embora não tivesse filhos, a probabilidade de ter gémeos era grande, pois ele e a mulher estavam com dificuldades em engravidar e desde o ano passado que tinham optado por tratamentos de fertilização. O médico já lhes tinha dito que a probabilidade de terem gémeos era muito superior à probabilidade de terem apenas um filho. Havia inclusivé a probabilidade muito forte de terem trigémeos.
Era estranha também a menção aos 47 dias de cativeiro do personagem. Era o seu prazo para acabar um projecto que muito provavelmente iria mudar o rumo da sua empresa. 47 dias era o que restava para apresentar a sua proposta que no caso de vencer garantiria trabalho durante os próximos dez anos.
Estas coincidências eram de facto estranhas e de alguma forma inexplicáveis. Seria motivo para alarme? Que disparate! É um motivo excelente para uma boa risada.
Fechou a revista e ouviu o seu nome a ser pronunciado pela encantadora assistente do Dr. Saraiva – o seu dentista de sempre que o acompanhou desde que se lembra de ter dentes.
Entrou para dentro da sala e quarenta e cinco minutos depois, saiu com os seus dentes todos tratados e com um sorriso algures entre a novidade e a dor. Dirigiu-se a pé para sua casa e no caminho foi reparando em pormenores ao longo da sua rota, tal como fazia o personagem principal do conto que tinha acabado de ler. Reparou numa quantidade anormal de cartazes anunciando o concerto dos Type-O-Negative, aquele para o qual tinha acabado de comprar bilhetes, para ele e para a sua amiga de infância que o ajudou a crescer e a atravessar todas as fases que mais tarde o vão definir como pessoa. Desse passado restava os Type-O-Negative que finalmente decidiram prestar tributo a todos os seus admiradores neste cantinho. A sua mulher, Isaura, não gostava nada desta banda e por isso sugeriu que Américo matasse as saudades do seu passado juntamente com a sua amiga de sempre – Luísa. Sugeriu com uma pontinha de ciúme que Américo bem a sentiu, mas que não fez caso e que na verdade aproveitou a sugestão dela logo à primeira, pois certamente seria muito mais divertido viver estes momentos com alguém que atravessou juntamente com ele os tumultosos mares da juventude e da adolescência.
O concerto era já amanhã. Tinha trabalho para acabar em casa. Dirigiu-se para o metro e meia hora depois chegava a sua casa, vazia, pois a sua mulher Isaura estava no estrangeiro a participar num seminário internacional. Sentou-se à frente do seu computador e durante horas dedicou-se a enriquecer o seu projecto com data prevista de entrega a 47 dias do dia presente. Pensou várias vezes no conto e sempre que o fazia, sorria com as coincidências entre os detalhes da história e os detalhes da sua vida. Foi-se deitar e dormiu o suficiente para acordar bem disposto e com força suficiente para encarar mais um dia de trabalho.
Após o pequeno-almoço ligou logo para a Luísa para a relembrar do concerto de logo à noite e para combinar o encontro. Durante a conversa, Luísa disse-lhe que lhe aconteceu uma coisa engraçadíssima e que estava em pulgas para lhe contar, mas que o faria mais logo quando se encontrassem.
Cerca de 1 hora antes do início do concerto, Américo apitou à porta de Luísa para que ela descesse. Dez minutos depois, Luísa entrou dentro do seu carro, com o seu sorriso inconfundível e histérica por finalmente poderem saciar um desejo que lhes tinha sido privado durante a sua adolescência – assistir a um concerto da sua banda favorita – Os Type-O-Negative.
Durante o trajecto só falaram disso e quando chegaram ao concerto entraram imediatamente para o hall de entrada para comprarem uma t-shirt para ficar como recordação do concerto.
Beberam uma imperial e entraram propriamente dentro da sala de espectáculos. Falaram de muitas coisas, de como o emprego estava a decorrer, da gravidez adiada do Américo e da Isaura, dos vários casos que a Luísa mantinha ao mesmo tempo por ter deixado de acreditar nos homens, dos últimos livros que tinham lido, etc. A meio desta torrente de informação, Américo lembrou-se da história fantástica que esperava ouvir da Luísa. Ela gritou um Ah! e riu-se. E então contou-lhe que enquanto tomava o pequeno-almoço num café do seu bairro, à cerca de uma semana atrás devorou um conto de terror que embora não sendo nada de especial, apresenta umas coincidências extraordinárias com a sua vida, a começar pela referência do personagem principal aos Type-O-Negative. Américo arqueou as sobrancelhas e murmurou um Ena!. Vê lá tu que me aconteceu precisamente a mesma coisa enquanto esperava por ser atendido no meu dentista. A sério? – perguntou Luísa. Naquele momento, baixaram as luzes, surgiram fumos no palco. Luísa deu uma cotovelada no braço de Américo, confirmando que estava a chegar a hora. Américo, no entanto, queria continuar a conversa para tentar perceber se as coincidências eram as mesmas, mas Luísa fez-lhe um sinal para se calar e concentrar no palco.
O vocalista dos Type-O-Negative, surgiu em palco, enorme, com um ar diabólico e chegou-se ao microfone que tinha um formato estranho. Tinha três pontas, duas em cima e uma outra mais pontiaguda em baixo. Ouviu-se a voz dele, mas da boca não saiu um único movimento. Luísa olhou aterrorizada para Américo, também ele lívido pelo que acabava de assitir. As vozes ecoavam na cabeça deles enquanto o vocalista dos Type-O-Negative ria-se, guturalmente, sem abrir a boca. Agarraram-se um ao outro, Luísa a gritar de pavor e Américo estupefacto com o que estava a assitir. O vocalista dos Type-O-Negative pegou no microfone, agora facilmente identificável com um “mata-sérvios” e a multidão que assistia ao concerto começou a correr para eles, a atropelarem-se para chegar a eles, com sangue a escorrer por todos os lados e com vozes a ecoarem nas suas cabeças acusando-os das maiores atrocidades e lembrando-os de que eram seres humanos desprezíveis e que não mereciam viver.
Acordaram num quarto, doridos, com um poster dos Type-O-Negative na parede, uns enlatados, uma cadeira barcelona e um velho computador no chão da sala.
Sabiam o que tinham de fazer...

segunda-feira, abril 16, 2007


Finalmente estamos a chegar ao verão, ao calor, ao bom tempo. A luz de Lisboa está-se a revelar, sem timidez e com a força bruta que normalmente emprega nesta altura. O nosso verão está a chegar, o nosso bom tempo está a sobrepôr-se ao frio e aos dias incertos. E assim vai continuar até o próximo Outubro. Falo do nosso, porque nunca vi uma luz semelhante à luz de Lisboa. Aquela que mais se aproxima é provavelmente Atenas, mas a cidade é horrível e o encanto não se revela através da sua luz. É nesta altura que Lisboa se transforma numa cidade mágica, num lugar único que me enche de orgulho e que me posiciona como um cidadão sortudo. Venha o verão, venha a luz, estamos ansiosos com a chegada da Lisboa.

É esta Lisboa que eu a partir da próxima semana vou ter acesso na primeira fila. Todos os dias vou passar a acordar com Lisboa inteira aos meus pés e todos os dias vou dar graças por ter este previlégio. A casa está quase pronta e a mudança prestes a iniciar-se. Tudo novo, espaço grande e uma varanda de sonho são os principais atributos desde meu novo espaço de vivência. Vai ser a minha 5ª casa em quase 12 anos e provavelmente não desejo muito mais do que isto. Estou muito contente depois de cerca de 1 ano e meio de espera e muito milhares de euros investidos. O desânimo foi uma constante ao longo de todo este doloroso processo, mas agora as coisas estão a mudar de figura. Só faltava o sol e a luz... Agora já não falta nada.

A carolina já diz pai e mãe e também chocolate e pé e pijama. Já anda como se o diabo estivesse à solta no corpo dela e tagarela num dialecto imperceptível mas cheio de intenção. O afonso é mais discreto neste novos avanços. Preocupa-se mais com os objectos e com a forma como desatarrachar tampas e parafusos. É mais dado a outras coisas, como se estivesse sempre a trabalhar e a resolver problemas e situações. É engraçado também.

Como pensamento positivo para hoje deixo a banda Jesus and Mary Chain. Tenho andado a ouvir a sua discografia e fico sempre impressionado com a qualidade das suas músicas. á levam com mais de 20 anos de carreira e o seu som continuo actual. Nunca tiveram grande sucesso por se manterem fieis aos seus princípios. Por exemplo nunca se mudaram para uma editora major. Independentes até ao fim e isso tem muita graça tendo em conta todos os esquemas comerciais nos quais a música está envolvida nos dias que correm. As suas canções são autênticas e fáceis. Têm um som uniforme e de fácil reconhecimento ao longo de toda a sua obra. A sensação que se tem é que as músicas e o espírito alternativo lhes sai assim... sem mais nem menos... sem esforço. É-lhes inato e natural. Quem dera a muitas bandas conseguirem algo assim tão puro, tão genuíno, tão bom. Marcaram-me na minha juventude. Quando ouvi os seus primeiros albúns senti uma revolução cá dentro. O feed-back das guitarras com a melodia por trás impressionou-me. Foram uma das primeiras bandas que assisti ao vivo no pavilhão do restelo, juntamente com a Zá, já lá vão quase 20 anos. Foi um concerto razoável, na altura desiludiram-me um pouco, hoje em dia dou-me por muito contente ter estado lá. É mais uma história para contar aos meus filhos. Hoje em dia olho para trás e considero os JMC uma etapa na música pop7rock/punk seja lá o que for. Há poucas bandas assim.

terça-feira, abril 10, 2007


Escrever é um exercício que exige treino, disciplina e muita rotina. Rotinar os dedos, ou mais poeticamente, a caneta (cada vez mais rara nos dias que correm) é o segredo para se escrever e alimentar entre outras coisas um blog, um diário, uma crónica, uma coisa qualquer. Tenho andado a escrever pouco neste blog, mas por outro lado tenho escrito algumas coisas para os meus clientes e iniciei á cerca de dois dias uma ventura de escrever um conto de terror para o cineclube de terror de Lisboa. Tem sido uma experiência óptima. Escrever com objectivos é muito mais fácil, por um lado, por outro o cuidado que se coloca nas linhas que saem da caneta tem de ser muito maior pois trata-se de uma peça a ser apreciada por outros em que, indubitavelmente, a minha pessoa estará reflectida nela e sujeita a avaliações externas e por isso subjectivas.

Tenho lido bastante também. Ultimamente deu-me para ler coisas relacionadas com a minha profissão e com as últimas tend~encias da comunicação e do marketing. E tem sido muito agradável. Tenho descoberto tendências que realmente me interessam e que vão de encontro a bastantes considerações sobre a técnica da comunicação que possuo, embora nunca tenha tido a capacidade de as verbalizar. Chegar a essa conclusão é extremamente agradável. Finalmente estamos a deixar cair esterótipos estúpidos do marketing em que um mercado é visto como um campo de batalha e as empresas são forças que guerreiam entre si, esquecendo aquele que facto mais interessa - o consumidor. Estamos a atravessar uma revolução com a banalização da internet e com as novas possibilidades que ela nos oferece. Não é uma nova economia como advogavam há uns anos atrás. É sim um novo meio que está a transformar os nossos hábitos de consumo e a forma das empresas abordarem os mercados e os seus consumidores.

Num livro fantástico que recentemente li, escrito pelo Chris Anderson entitulado de "A cauda longa", este autor advoga que os hits estão a acabar. Esta é uma consequência da enorme capacidade que uma loja on-line oferece, sem custos de armazenamento e sem limitações de espaço, ou seja, com uma escolha tão grande, os consumidores têm a liberdade de percorrer todo um espectro que antes estava resumido à capacidade de uma prateleira dentro de uma loja. Daí a necessidade da criação de hits. Estes surgiam como consequência de uma incapacidade de respeitar os gostos dos consumidores, porque de facto não era possível derivado das limitações físicas de uma loja. Com as lojas virtuais isso acabou e mais... com a introdução de ferramentas de aconselhamento e opiniões emitidas pelos anteriores compradores, está-se a dar lugar a um verdeiro respeito pelos gostos das pessoas e a uma quantidade enorme de livre escolha. Daí a longa cauda que é uma representação de um gráfico de vendas. No início estão os hits com vendas absurdas e depois ao longo da cauda estão os restantes. Mas cada vez mais estes restantes assumem uma importância maior do que os hits, quer em termos quantitativos, quer em termos relativos. A regra dos 80/20 está pela hora da morte. estamos a chegar a uma regra dos 99/100. Muito interessante.

Os meus filhos já andam plenamente. A Carolina passa o dia a andar e o Afonso, embora mais preguiçoso, também já domina as suas pernas.

A nossa casa está pronta (finalmente!) Só falta a cozinha. Vamos mudar este mês.

Como pensamento positivo para hoje, deixo o livro do Chris Anderson. muito inteligente, extremamente bem escrito e potenciador de ideias para encara este novo e importante estágio que estamos a atravessar. Somos uns sortudos. Estamos em plena revolução de hábitos, sociais e de consumo e estamos a assistir da bancada VIP com todas as possibilidades de saltar para o palco. Estou optimista...

sexta-feira, março 16, 2007



Já faz mais de 1 mês que nada escrevo no blog. Muito aconteceu neste entremeio que me deu para não escrever. Começo pelas coisas más. A mãe da TT morreu de uma forma súbita e inesperada e acima de tudo muito chocante. De um momento para o outro começou a perder a memória e não conseguir relacionar as coisas. Foi para o hospital e diagnosticaram-lhe uma encefalite viral, ou seja, um vírus que se aloja no cérebro e vai fazendo das suas. Estava tudo a compôr-se, depois de uma semana acamada no hospital, quando o Pau-Pau liga-me a dar a notícia. Fiquei muito impressionado, muito mesmo. Depois foi a realização do velório e funerais e etc. No velório cruzei-me com toda a família e em conversa com o Manel soube que a Cândida tinha morrido de embulia pulmonar pelo facto de ter estado muito tempo sem locomoção. Trágico e um pouco sem sentido.
Foi também um período em que celebrei o meu 36º aniversário. Fomos sair nessa noite e foi bastante divertido.
Muito mais coisas haveria para dizer mas estou sem inspiração. Sem inspiração absolutamente nenhuma de pois de um mês ntenso de trabalho com poucas horas dormidas.
Como pensamento positivo para hoje deixo os meus filhos. O afonso e a carolina já praticamente andam e embora não falem estão quase a chegar lá. estão extremamente exigentes e encantadores. O grande problema é comerem. Estão demasiado excitados e ávidos de coisas novas que parar para comer é um desperdício. Deixamos de insistir para não tornar a hora das refeições um suplício e uma arma de arremesso deles contra nós. As refeições devem ser um momento de prazer, um momento de bem estar com muita boa disposição. Havemos de chegar lá.
O tempo está a melhorar. Já se sente os dias de praia. este fim de semana devemos fazer uma praia para matar saudades e para gastar a energia dos putos.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007


Para hoje, deixo a tradução de um artigo de Kevin Roberts sobre um novo estágio da comunicação e do consumo. Achei este artigo absolutamente fenomenal pois vai ao encontro de um conjunto de ideias que sempre defendi, mas que nunca consegui sistematiza-las ou sequer verbaliza-las de uma forma sintética e prática que permitisse alguma aplicação. Estas ideias sempre tiveram na minha cabeça mas de uma forma confusa. É esta capacidade que me falta e que distingue os génios das pessoas normais. Um dia destes espero chegar lá.

Em todos os artigos que tenho lido sobre as novas tendências da comunicação e do consumo, tenho notado o tom expresso neste artigo. Estamos a chegar a uma fase de transicção em que é preciso mudar e encontrar um novo caminho que permita uma adaptação às novas possibilidades que as sociedades de consumo nos oferecem. Agora sinto que estamos a chegar a uma fase realmente interessante em que se combinam as técnicas de vendas com uma psicologia de consumo (ao invés de se impor essa psicologia) e fundamentalmente centrada no indíviduo, independentemente das suas raças, credos e gostos. Primazia às emoções em detrimento das racionalizações, à criatividade em detrimento do conformismo. Algo de muito interessante está a acontecer.

O pensamento positivo de hoje vai para este sujeito - Kevin Roberts, que tão bem soube expor este novo sentimento, esta nova inquietação que abre inúmeras portas para o futuro e que o torna muito mais interessante.


Estamos a viver a idade da atracção
Ponto central da questão: Os marketeers devem ligar-se emocionalmente com os consumidores
Por: Kevin Roberts
Publicado: 29 de Janeiro, 2007 in Advertising Age
Adaptado do livro “The Lovemarks Effect: Winning in the consumer economy”, by Kevin Roberts

Os meus primeiros anos como profissional de marketing foram passados na Procter & Gamble e na gillette no médio oriente. Era comprar e vender no seu estado mais elementar. Cada rua tinha as suas especialidades, os seus cheiros, a sua própria comunidade. Naturalmente que surgiam aqui e ali alguns gritos e discussões, mas a maior parte das transacções eram resolvidas com base nas relações pessoais e na capacidade de despertar os 5 sentidos. Montras vistosas e perfumadas, o omnipresente momento de servir um chá, as últimas notícias e o constante movimento que caracteriza o bazzar... Absolutamente irresistível!
Deixar este mundo rico em texturas foi o próximo passo. Durante anos lutei contra a acéptica forma de consumir do mundo desenvolvido onde reinava a ausência de sentidos, intermináveis prateleiras e produtos perfeitamente empilhados. As pessoas não são feitas de linhas exactas. Cheguei a perguntar-me porque é que havia supermercados?
Depois veio a revolução digital e as regras começaram a ser quebradas, confundindo os retalhistas e os produtores com novas exigências escolhas e necessidades. O impacto da concorrência passou a ser uma obsessão quando as margens são baixas e os riscos elevados. Os meios tradicionais, o marketing e a publicidade foram apanhados numa corrida com retornos diminutos e ainda continuam a lutar para se recomporem e adaptarem-se à nova realidade ou continuam a tentar remar contra a maré.

De volta ao Bazzar
Hoje em dia há mais de um bilião de pessoas on-line a criar o maior Bazzar que o mundo já assitiu. Acrescente-se ainda mais 2 biliões de consumidores tradicionais e entramos numa nova era da comunicação. E o que é que isto me faz lembrar, mais do que qualquer outra coisa? O Souk de Casablanca. Nesta nova versão, 2 coisas são importantes: O que acontece no monitor e o que acontece dentro da loja. Em ambos conseguimos vislumbrar a forma do que eu preconizo no meu livro “the lovemarks effect” como a “Economia da Atracção”.
Este vai ser o ano em que a “Economia da Atracção” vai emergir. Assente no princ´pio básico da orientação dos produtores e retalhistas para os consumidores , o futuro pertencerá aos que conseguirem ligar-se emcionalmente com os últimos.
Embora a ideia da atracção seja simples, os maketeers desvalorizaram-na deixando-a nas mãos do tradicional mundo do showbizz. Ignoraram os detalhes implícitos no processo de atracção pessoal, um processo onde a emoção gera intimidade. As economias necessitam de moeda para que as ideias e os produtos possam fluir. A atenção humana é a principal moeda da “Economia de Atracção”; a emoção humana é o fundamento da “Economia de Atracção”. Identificar a emoção é difícil porque as suas complexidades não são mensuráveis. Basta pensarmos no valor do nosso rosto. Os nossos músculos faciais consegume mais de 10.000 combinações possíveis capazes de traduzir aquilo que estamos a sentir. A “Economia de Atracção” não é baseada no princípio de “One hit and you’re it”. Atracção exige emoção, mas emoção com um propósito.

Uma nova missão
Toda a gente está obcecada pela organização e as suas metodologias, parcerias e protocolos. O que realmente necessitamos é de pensadores criativos, pessoas que resolvam problemas e inovadores. O verdadeiro desafio está nas mãos dos que têm grande capacidade de atrair e de produzir as coisas que realmente interessam aos consumidores: música e design, jogos e lojas, parques de diversão e eventos, hotéis e entreternimento.
O surgimento da “Economia de Atracção” abre um novo mundo para os consumidores , marketeers, publicitários, editores, retalhistas, designers de jogos – todos nós!. A emoção colocada no coração daquilo que fazemos tem a capacidade de nos libertar dos espartilhos tradicionais que nos manteve à afastados.
O que conta é saber responder aquilo que as pessoas desejam e valorizam. Ninguém quer fazer parte de uma indústria que impinge às pessoas coisas que não necessitam. Vamos todos contribuir para proporcionar escolhas realmente atractivas e excitantes que possam fazer a diferenção na vida das pessoas.

Os 10 princípios da “Economia da Atracção”
1. Emoção atrai emoção: As escolhas emocionais são aquelas que mais contam porque elas propiciam a mudança. O neurologista Donald Calne diz-nos que a razão leva-nos a conclusões enquanto a emoção leva-nos à acção
2. Os sentidos atraem as emoções: Fragrâncias ricas, sabores satisfatórios e ambientes de tacto surpreendem-nos e deliciam-nos. As feromonas são mensageiros irresistíveis da atracção.
3. O gosto atrai o gosto: A empatia é a energia da “Economia de Atracção”. Nada atrai mais do que um profundo conhecimento das coisas que nos interessam.
4. Surpresa atrai prazer: As pessoas adoram o que é novo e diferente, excitante e estimulante. O mistério mantém a atracção viva
5. Interactividade atrai o compromisso: Seja através de um click, telefone ou uma peça gráfica, a partir de um momento em que assumimos um compromisso, estamos mais predispostos a fazê-lo novamente.
6. Histórias atraem memórias: 77% dos americanos conseguem identificar pelo menos 2 dos 7 anões.Apenas 24% consegue identificar 2 juízes do supremo tribunal de justiça. Onde é que está a diferença? Os anões têm melhores histórias para contar do que os juízes.
7. Entretenimento atrai contactos: As capacidades de um entertainer animam a “Economia de Atracção”
8. Música proporciona sentido: As pessoas encontram-se consigo próprias através da música há mais de 30.000 anos e hoje em dia temos a possibilidade de encontrar música à nossa medida
9. Comunidades atraem lealdade: Juntos conseguem. Separados conseguem comunicar através dos telemóveis.
10. “Lovermarks” atraem consumidores inspirados: Eles são as pessoas que adoram ser envolvidos. São apaixonados pelas suas marcas de referência, divulgam as suas experiências e inovam... de graça.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007


Que seria de nós sem vícios? Toda a nossa vida gira em torno de vícios e o tempo a correr não é nada mais do que evoluir ou passar de um vício para outro. São os vícios que nos fazem lembrar de que existimos e de que precisamos continuar vivos. Mas há vícios e vícios e por aqui vou-me concentra apenas nos bons vícios ou nos vícios de ócio. Presentemente adquiri 2 vícios que já fazem parte da minha rotina. São vícios que surgiram como consequência do meu novo e recente estádio de pai de família, portanto mais caseiro e condicionado pelo tempo dos meus filhos. São vícios defensivos às vezes, outras vezes de sobrevivência, outras vezes de pura gula e prazer. Todas as noites reservo o período logo após o jantar e depois de deitar os meus filhos ao visionamento de séries americanas no conforto da minha cama, com a minha mulher e com o computador nos joelhos. A acompanhar este vício vem o vício do chocolate. Pode ser em formato de gelado, de barra de chocolate, de qualquer coisa que contenha esse mágico alimento que nos vem inspirando desde que se tornou conhecido entre nós. Toda a gente gosta de chocolate, ou se não gosta, foi por um trauma ou uma incapacidade orgânica de ingerir esse alimento mágico. Deve ser dos assuntos mais consensuais no mundo inteiro. As crianças, os adultos, os velhos, os brancos, pretos, maraelos, mulheres, homens, polícias, ladrões, homicidas, suicidas, todos gostam e não fazem qualquer condescendência. O chocolate é uma bandeira, uma nação, uma poesia, uma fotografia das coisas boas que o mundo nos pode dar, um carimbo que nos certifica com animal com sorte e previligiados. Gosto muito de misturar chocolate com whisky e recentemente descobri finalmente o encanto e o poder do chocolate negro. Senti esta descoberta como aquele momento (que ainda estou à procura) em que se descobre o jazz e tudo o resto fica para trás. Ainda não descobri o jazz e francamente esse é um caminho que cada vez mais se tem revelado tortuoso para mim, mas ao menos já descobri o chocolate preto!
Estamos em contagem decrescente para o grande concerto dos nine inch nails. Para além de mim e da paula, a tt e o yannis, juntaram-se à festa o joca e o filipe. Vai ser estrondoso e bem que preciso de emoções e momentos assim.
O afonso está com problemas a dormir. A sua respiração é tortuosa e complicada ficando por vezes suspenso sem respirar o que causa muita confusão. Tenho feito vapores todas as noites. este momento tornou-se algo especial pois após vermos as séries de tv na cama este momento obriga-me a ler o grande Pepe Carvalho enquanto espero que o soro termine dentro do quarto deles. Por vezes torna-se impossível ler, mas a maior parte das vezes dá para ler uns capítulos e delicira-me com a prosa do grande maestro montalbán.
A casa vai avançando, lentamente, mas vai avançando. Estamos a contar mudar-nos em Março.
O emprego vai um pouco melhor, mas continua no mesmo marasmo. O que interessa é que o dinheiro entre mensalmente para pagar as monstruosas contas que estamos a suportar neste momento.
Como pensamento positivo para hoje deixo, claro, o chocolate! Toneladas de chocolate de todas as formas e feitios...

segunda-feira, fevereiro 05, 2007


Tal como o branding, hoje em dia está na moda o labeling. O labeling diz respeito à nossa capacidade de rotular tudo o que está à nossa volta. Rotular, classificar, localizar seja quem for, seja o que for. Tudo é passível de classificação, inclusivé o inclassificável. Estamos numa época de transicção em que tudo já foi inventado e divulgado, por isso é preciso canalizar a nossa criatividade, a nossa atenção e produção intelectual para outros campos. Gastamos essa energia a classificar o que falta classificar e como se não bastasse classificamos o próprio acto de classificar. Tenho pensado nisto e tenho andado à procura de traduções mentais que de alguma forma se possam socorrer deste labeling para podermos chegar à forma una de pensamentos e associações que ainda não surgiram. Por exemplo, criar uma agência especializada em promover bancas de feira. Para tal recorremos a uma teorização assente na história dos nómadas, nos grandes mercados cuja sua perfeita tradução são os bazares árabes - Estamos aqui a empregar uma técnica de "BAZZARING" - O bazzaring é a ferramenta perfeita para se emprender uma estratégia de sucesso junto dos seus clientes que o vão visitar às feiras. Para além disso tem um programa específico de software que o vai ajudar na logística muito especial agregada a este negócio.
Se continuarmos neste universo e evoluirmos para o estágio seguinte - as lojas - seria bom aparecer uma agència especializada numa das componentes de uma loja a que os clientes prestam mais atenção - os alarmes. Construir uma relação equilibrada, saudável e proveitosa entre os seus clientes e os alarmes das lojas deverá ser uma prioridade, por isso acabei de inventar o "ALLARMING". As potencialidades desta técnica garante resultados excelentes no que toca à fidelização e desenvolvimento de novos canais de comunicação.
Para terminar por hoje, sugiro ainda uma técnica revolucionária de aumentar a produtividade e a criativadade dos empregados em qualquer grande organização que é o "SMILING". O smiling não poderá ser encarado como uma obrigação. Deverá ser o reflexo do desenvolvimento de uma companhia envolvendo o seu maior potencial - os seus empregados. Desenhar campanhas de Smiling pressupõe conceitos revolucionários que transferem o poder de decisão para os empregados, garantindo assim um clima de harmonia e de verdadeira cooperação entre todos os elementos que compõem uma organização. As campanhas de smiling funcionam ao contrário das tradicionais campanhas de incentivo dentro de uma empresa. São os empregados que definem os objectivos dos patrões e se estes os atingirem serão pagos pelos próprios empregados, pagamento esse reflectido em sorrisos e logo em maior produtividade.

Tive um óptimo fim de semana. Deu-se um caso estranho no sábado. Os meus filhos dormiram 14 horas seguidas. 5ª, 6ª e sábado tiveram no jardim da estrela a queimar todas as suas energias na areia e no chão. Divertiram-se mas cansaram-se e vingaram-se nas almofadas. Domingo ainda fomos a setúbal almoçar choco frito e lá também tioveram direito a andar pelo chão, de gatas com directo a apanhar beatas e toda a espécie de porcarias a que tinham acesso. Foi divertido.

Como pensamento positivo para hoje deixo a série de TV Rome da HBO. Já estamos a ver a season 2 e o arrebatamento visual e de argumento é de facto memorável. Conseguiram cruzar de uma forma brilhante uma história pessoal de 2 indivíduos com os factos históricos da ascensão e queda de Júlio César na roma antiga. Brilhante e viciante.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007


Desde que dei as aulas na etic que a questão à volta da teorização das marcas, ou o brand marketing, me tem interessado muito. Nunca me interessei muito por estas teorizações estúpidas à volta dos assuntos de marketing, mas esta tem merecido a minha atenção e tenho usado frequentemente na construção temática das minhas propostas para clientes. Muito se tem falado sobre, o valor de uma marca, o que pode representar para um consumidor, a sobreposição da marca à própria publicidade, etc. Os produtos estão a ser ultrapassados pelas marcas que os representam. Cada vez mais a noção de produtos bons e maus está a desaparecer. São todos bons, o que interessa é o valor acrescentado que ele vai gerar para a minha vida enquanto pessoa, perdão, enquanto consumidor. Eu consumo, logo sou. É um princípio preocupante que tem vindo a ganhar terreno de uma forma avassaladora e que tem moldado a face da nossa sociedade de consumo. As pessoas estão a entrar numa fase de amadurecimento no consumo e apenas escolhem aquilo que supostamente lhes assente independente do preço e da qualidade do produto - tudo centrado na marca. Será isto amadurecimento? Talvez sim, talvez não... Eu diria que estamos a entrar numa nova fase de consumo, numa nova fase de socialização em que o sistema de consumo venceu, em que as pessoas se renderam definitivamente ao conforto do material, à relegiaão do materialismo assente na doutrina do consumismo. Passamos de cidadãos a consumidores e estamos mais gordos, mais desisteressantes e mais conservadores, mais resignados.

As marcas e as empresas não têm de se adaptar a esta nova condição. Foram elas que a criaram e por isso deverão entrar sim num novo nível de comunicação para chegar ao cosumidor, para ele se poder afirmar enquanto pessoa, sempre através de logotipos, de marcas que estão a passar de efémeras a imortais. Tudo isto é muito grave. Mas acima de tudo, antes de grave será diferente. Estamos a forjar novas regras centradas no indivíduo. Dentro em breve vai deixar de haver empregos, para passar a haver negócios e oportunidades. Estamos numa fase que se poderá caracterizar de avant-retro, ou seja, o futuro é cada vez mais parecido com o passado. Toda esta realidade está-se a transformar e estamos a passar da empresa multinacional para o bazar. O mundo está-se a tornar num grande bazar em que todos podem ter a possibilidade de oferecer algo a todos. Este bazar tem um nome: Web ou internet. Graças a este poderoso meio, tudo se está a transformar e nada será como antes. Mas apesar de tudo esta perspectiva não me desagrada. Prevejo uma distribuição mais equitativa da riqueza, no entanto menos segurança profissional. As boas ideias vão passar a ser muito valorizadas, mas com um tempo de vida muito curto. Estou muito expectante e muito entusiasmado. Falta apenas uma centelha de preocupação com a humanidade. As marcas estão a tentar usar isso para promover as suas mais recentes estratégias de abordagem ao mercado, mas não é autêntico pois tudo é dirigido para atingir o lucro, para vender os seus produtos e os seus serviços. Mas havemos de chegar lá.

Estou a ouvir o último albúm dos arcade fire. Canadianos são uma honrosa execpção, verdadeiramente original no triste panorama da música actual. Saquei-o da net, como é óbvio, estou a ouvi-lo no meu computador e nem sei como é a capa. Tudo novos sintomas desta neo-cidadania. Para hoje, o pensamento positivo vai para esta banda e para o seu albúm de estreia de 2005 - funeral. Verdadeiramente fora de série.

quarta-feira, janeiro 31, 2007


"O seu futuro começa hoje" - Esta é frase publicitária que estamos a utilizar para promover uma revista dedicada exclusivamente ao novo Windows Vista. Discorrer sobre o futuro no momento de vida em que estou neste preciso momento é absolutamente e absurdamente diferente do que, por exemplo, há dois anos atrás. O que é o meu futuro agora? Passa por uma carreira fulgurante? Por uma resignação involuntária? Passa por inúmeras coisas que antes não ligava patavina, mas que agora assaltam-me cada vez que penso nisto. Passa seguramente por proporcionar aos meus filhos a melhor vida possível. E esta vida tem a ver com a felicidade deles no seu quotidiano e no dinheiro que tenho para potenciar esse quotidiano. O que levanta questões relacionadas com a vida profissional que obrigam a outra ética e outra moral. O que é um bom emprego? É um emprego que se ganha bem ou que se faz algo de útil para a sociedade e para mim mesmo? É a conjugação das duas coisas, mas com a balança a pender para o dinheiro, ao contrário do que seria há 2 anos atrás. O mapa das preocupações ganham uma nova geografia em função de terceiros, em função de questões verdadeiramente altruístas e das quais não me consigo libertar. Por outro lado, enveredar por este caminho mais duro, mais frio, torna-me uma pessoa diferente da que estou habituado a encarar todos os dias ao espelho. Passo a encarnar seguramente outros valores, outras prioridades que obrigam a pensar as minhas acções de uma outra perspectiva, necessariamente mais calculista e nem por isso melhores ou piores, apenas diferentes. Dar este passo não tem sido fácil em termos teóricos. Em termos práticos a transformação tem ocorrido de uma forma quase involuntária, como se da minha sobrevivência se tratasse. Penso que estes períodos são férteis em termos de ideias, de estratégias para a minha vida, mas obrigam a passos seguros e a tomada de decisões sempre em função de dois universos, acrescentando um quoficiente de cansaço ao meu cérebro, ao meu corpo.

O futuro começa hoje? É bem possível. futuro não é mais do que uma abstracção que resumo os nossos anseios, as nossas inseguranças, os nossos medos, os nossos desejos. O futuro é uma espécie de almofada sem a qual não conseguimos dormir e portanto sobreviver e que resume de uma forma simpática uma espécie de cartografia de todas as características que assistem à nossa condição humana. Estou confiante no meu futuro? Claro que estou! Nem que seja pelos 2 encantadores seres humanos que todos os dias me exibem um sorriso sempre que eu chego a casa e que me faz esquecer, por momentos, de todas estas questões que me roem e descarnam os tecidos da minha alma, da minha consciência.

Ontem acabei o módulo de marketing relacional e fidelização na etic. Caberá agora aos alunos concluirem os seus trabalhos de grupo e apresentá-los no próximo dia 9 de fevereiro. Será esta apresentação que irá condicionar e definir a nota final de cada um. Gostei bastante de dar este módulo. Calhou-me uma boa turma e a matéria é bastante mais agradável do que as anteriores que dei na epci. Fui desleixado na preparação das aulas. Deveria ter arranjado mais tempo para me preparar, mas apesar de tudo ainda fiz alguma pesquisa e deu para fazer uma apresentação muito interessante de cerca de 100 páginas. Gostei de estudar e foi bastante útil para mim. Revi alguns assuntos e aprofundei outros construindo assim novas bases para poder pensar o marketing relacional e a minha profissão. Estes desafios são interessantes por isso e por poder praticar a nossa oratória. Na verdade o papel de um professor é central na nossa sociedade. Tem um poder imenso e deve ser explorado e tratado de uma forma muito especial. Tem além disso o poder da auto-estima. Foi uma experiência muito interessante que pretendo repetir aqui na etic. Tenho uma proposta para dar uns workshops na epci mas vou recusar. Os alunos são maus e a escola está extremamente mal organizada.
Ontem os meus filhos comeram a sua primeira refeição de sólidos integral. Na verdade comeram a nossa refeição, peixe com arroz. Naturalmente adoraram, pois continha sal e sentiam-se bem a imitar-nos e a fazer exactamente a mesma coisa. É muito importante estimularmos este gosto pela comida nos nossos filhos. Eles têm de sentir-se bem a comer e confortáveis, como se as refeições fossem um momento de prazer, não apenas gustativo, mas de todos os sentidos. Isto custa-nos a nossa própria refeição, pis a atenção dispendida é enorme. Não interessa. O segredo é arranjar uma rotina, uma rotina que previligie a brincadeira à mesa. Ao princípio custa, pois estamos cansados, estoirados mesmo, mas com o tempo vai lá.
Ontem foi dia de pediatra. Não consegui ir, mas a Paula foi lá com eles. Está tudo óptimo exceputando o peso do afonso. Muito abaixo para a sua idade, na verdade abaixo inclusivé do percentil 5. Estamos um pouco preocupados. Na consulta dos 15 meses vamos avaliar a evolução do peso e determinar futuras medidas a tomar relativamente ao peso do afonso.
Nas nossas sessões nocturanas de tv/computador na cama a ver séries americanas, deu-se um caso que não gostaria de deixar passar, pois foi absolutamente inédito para mim. Estávamos a visionar o Dr. House e num episódio debruçaram-se sobre os malefícios do tabaco e pela primeira vez na vida senti um impulso de deixar de fumar imediatamente. Quase como um imperativo. Foi um sinal. Deverá estar para breve deixar de fumar (com bastante pena pois poucas coisas igualam o sabor e o prazer de um cigarro).
Como pensamento positivo para hoje deixo novamente o manuel vasquez montalbán e o seu personagem pepe carvalho. Não me vou alongar mais sobre esta personagem a roçar a perfeição. Já o disse anteriormente. Faço nova menção pois já comecei a ler a segunda parte da derradeira obra do montalbán dedicada às viagens do pepe carvalho. Finalmente consegui comprar o milenio 2: nos antípodas e espero grandes feitos deste livro. É uma espécie de vício que se instalou em mim e que não irei abdicar por nada.
Viva o pepe carvalho!

segunda-feira, janeiro 29, 2007


Está um frio de rachar... Ontem, domingo, esteve ainda pior. Foi tudo documentado na tv, com avisos sucessivos de alertas laranjas e amarelos e de todas as cores por forma a manter toda a gente bem informada e sobretudo agasalhada. E de tal forma isto resulta que as pessoas ficam muito descansadas e para combater o frio não saem de casa. É verdade, parece que ninguém gosta de um friozinho e de sentir as várias caras da natureza. No sábado pude comprovar exactamente isto que estou a dizer. Estava frio, é verdade, mas não estava assim tanto frio que justificasse o concorrido jardim da estrela estar completamente vazio. Fomos andar nos baloiços com os putos e com o francis a mafalda e os filhos e o parque das crianças estava totalmente vazio. Ninguém para andar nos baloiços e nas outras geringonças que por lá haviam. Foi uma sensação estranha e engraçada ao mesmo tempo. Não sei se isto é um sinal de civilidade ou de outra coisa qualquer. De facto é bom termos estes avisos e preparar-mos tudo de antemão para não haver falhas e correr tudo bem, mas vendo bem também me parece uma coisa algo estúpida. Perder uma série de coisas boas só porque não queremos arriscar... arriscar? arriscar em quê? Passamos a arriscar a partir do momento em que nos previnem. É este medo que eu tenho medo que se instale nas nossas vidas. O medo de pisar o risco, de arriscar. Assusta-me as sociedades extremamente organizadas em que tudo funciona da mesma forma e quando alguém faz de forma diferente imediatamente temos o vizinho do lado a denunciar-nos. E faz isto de consciência tranquila, pois usa o argumento que está a por em causa a segurança dos que estão à volta dele. Muitas vezes isto acontece, mas deve haver um limiar para isto. Eu tenho de ter a possibilidade de não querer fazer as coisas de determinada forma, tenho que ter a liberdade de complicar a minha vida e de não ser denunciado ou julgado por isso. Cada vez mais e sobretudo após o 11 de Setembro, a nossa sociedade tem vindo a cerrar-se em si própria, permitindo soluções absurdas em prol de um siposto bem comum. Todas as acções são justificáveis desde que garantam segurança. É um bom princípio, mas todos nós já deveríamos estar num estado avançado de civismo para colocar alguns travões nesta forma de pensar e de agir. Falo de uma posição confortável, pois nunca senti o terrorismo perto de mim, nem ele me afectou directamente. Caso contrário pensaria, se calhar, de forma diferente, mas o terrorismo não deverá servir como escudo ou como justificação para todas as barbaridades que nos estão a infligir enquanto cidadãos. Partindo desta forma de pensar vai-se educando uma geração que estará apta a aceitar tudo e a praticar um civismo que em nada honra as conquistas que se foram fazendo no passado pelo direito da cidadania. As novas gerações estarão habituadas a violações da liberdade, privações de várias naturezas e assentes numa cultura de denúncia e muito individualista. E quando chegarem ao poder querem ter a certeza que a sua vida até então não foi em vão e vão praticar, fomentar e desenvolver tudo a que foram sujeitos durante as suas vidas. Traçar uma linha entre violação e segurança é difícil, mas devia estar muito mais presente na mente de todos. Os governos e os governantes fazem uso do medo para precisamente fazer com que a violação ganhe e ao usarem o medo como arma estão a atingir bem lá no coração todas as famílias e pessoas que apenas querem sobreviver. Vamos ver no que isto dá.
Este fim de semana experimentamos a máquina bimby do francis. Combinados um almoço em casa dele e foi bastante agradável. Na verdade a paula tinha lançado o desafio de fazermos um almoço todos juntos para comemorar o futuro nascimento da violeta, terceiro filho da mafalda e do francis. Este nascimento está cravado de dúvidas e agústias principalmente para eles e para todos os que o rodeiam. Não foi (mais uma vez) uma gravidez desejada pela mafalda e pelo francis. Foi anunciada muito tarde pelo que apanhou toda a gente de surpresa e que indicia algum incómodo. Decidimos marcar este almoço para desafiar e acabar com este clima horrível e sufocante, mas pouca gente respondeu e inclusivé a mafalda e o francis não podiam porque não tinham dinheiro... mas tinham lá em casa uma bimby! Fomos comprar os ingredientes e comemoramos nós os 4. Foi muito agradável.
Durante o almoço a carolina perdeu o medo de andar. Agarrou-se a uma espécie de carrinho com um andarilho e foi um ver se te avias a correr e a rir-se às gargalhadas pela casa toda. Foi um momento muito engraçado.
Como pensamento psoitivo para hoje deixo o john difool, uma personagem que o moebius criou para sustentar a BD do incal. Gosto da personagem que é uma espécie de anti-herói, cobarde e oportunista mas que tudo gira à volta dele e ele é sempre a chave para resolver os problemas, memsmo fugindo deles e não querendo nada com a realidade. Esta bd passa-se no futuro e tem um deslumbre gráfico muito próprio do moebius. Esta bd marcou-me, pois foi a rampa de lançamento para desenvolver o meu gosto à volta da 9ª arte. Foi uma espécie de debute para apreciar a bd de adultos. Sempre li muita bd, mas existe um momento em que o deslumbre gráfico fica determinado e afectado pelo argumento que lentamente se vai sobrepondo ao traço. Esta bd alia as duas coisas de uma forma exemplar e deverá permanecer como uma etapa inultrapássável da história da bd europeia e mundial. Ainda hoje me lembro de referências transmitidas por esta obra. E a sensação de redescobrir qualquer coisa é deslumbrante. É uma espécie de porta que se abre para um infindável número de novas sensações que poderão provir deste arriscado passo. É uma espécie de graal terreno que nós passamos a perseguir em todas as coisas da vida e que à medida que o tempo avança se torna mais difícil encontrar graais que nos façam lembrar do valor da vida e da condição humana.

sexta-feira, janeiro 26, 2007


Estou à beira de mais um fim de semana e o livro do Montalbán ainda não saiu. Tenho visitado diariamente as livrarias à procura dele e nem pó. Será um vício semelhante ao do tabaco e que se consegue isolar numa determinada zona do cérebro? Fiquei de facto muito impressionado com a notícia que já comentei no post anterior. A cartografia do cérebro é um asssunto muito importante e deveras fascinante. Tudo é comandado a partir do cérebro e segundo dizem nós só aproveitamos cerca de 5 a 10% das suas potencialidades. Será que com a evolução da sociedade e das novas tecnologias nós desenvolvemos a nossa massa encefálica e assim vamos aproveitando cada vez mais as potencialidades desta? Ou apenas adaptamos aquilo que já está desenvolvido e incorporamos novas rotinas? Se se der o caso da primiera hipótese então significa que a nossa evolução está limitada, pois havemos de chegar ao fim das potencialidades do nosso cérebro e se for a segunda hipótese então nada nos parará, mas ficaremos sempre nestes 10% de potencialidade deste peso aqui em cima. Na verdade muito pouco conhecemos sobre este orgão que nos dá a personalidade e a capacidade de existirmos enquanto seres pensantes. É um assunto que me fascina e todos os avanços que se têm vindo a fazer nesta área são sempre fascinantes e não conseguem ocultar um lado de espíritismo, ou mais cientificamente, de emoções, impossíveis de quantificar... para já. E tanto mais é fascinante porque é o cérebro que nos confere a nossa individualidade e para mapear esta área do nosso corpo precisamos de regras e características comuns a todos nós, o que gera uma espécie de paradoxo, mas que tem vindo a ser desconstruído ao longo dos últimos anos.
O que irá acontecer quando o cérebro for totalmente cartografado? Assistiremos a uma fusão entre a magia e o espiritismo com a ciência, ou pelo contrário, um dos lados engolirá o outro? Provavelmente a ciência assambarcará tudo, e tudo será explicado, incluindo auras, mentes e afins. Mas como irá sobreviver o que hoje chamamos de oculto? Será que se vai transferir para as máquinas e passará a haver uma espécie de misticismo web? Situações impossíves de se resolverem lógicamente e cuja única explicação reside em hipóteses apenas prováveis ou mesmo improváveis. E será este misticismo real, presente de facto no complexo mundo das máquinas e da vida virtual, ou será apenas criado por nós, ansiosos por voltar a um tempo onde nada era explicado e muito dependia da nossa imaginação?
Hão-de haver sempre soluções para a nossa imaginação, para localizarmos o nosso medo. Tudo se resume a isso... Isolarmos o medo para conseguirmos criar barreiras e limites para vivermos uma vida mais descansada. Sem medo vamos todos ao fundo e deixa de haver ética para conosco próprios e para com os nossos. Não que o medo seja uma coisa boa, mas é definitivamente necessária e muitos anos mais há frente tenho a certeza que quando conseguirmos chegar ao fim do planisfério do cérebro outras questões surgirão com tal potência que iremos ter a sensação qe afinal ainda estamos mais incultos e com muito caminho para percorrer e com muito espaço para colocarmos os nossos medos e assim desenvolver mecanismos verdadeiramente interessantes apoiados na nossa imaginação.

Como é que nós medimos o tempo? O que é muito tempo e pouco tempo? Como é que o tempo se apresenta perante o nosso quotidiano e como é que nós o conseguimos gerir? Certamente terá a ver com cada situação que se nos depara pela frente. Por exemplo: O tempo que dispendo a tratar dos meus filhos parece-me sempre curto quando visto de uma macroperspectiva, mas, por outro lado, cada acção que empreendo junto dos meus filhos, cada acção isolada, parece-me sempre uma enormidade de tempo. Mudar as fraldas e vesti-los a seguir ao jantar. Esta é uma acção que leva cerca de 30 minutos, mas que para mim me parece infindável enquanto estou a empreender essa acção. Pô-los a dormir é a mesma coisa. São cerca de 20 minutos que me parecem uma eternidade, mas após estas acções estarem feitas e quando finalmente tenho um pouco de tempo para mim, quando penso no tempo que dispendi com os meus filhos ao longo do dia (nos dias de semana será correcto falar ao longo da noite), este tempo dispendido parece-me sempre curto. O tempo que gasto a seguir aos meus filhos estarem deitados, o tempo gasto e investido em mim e na paula é de facto muito tempo quando comparado com as acções anteriores, mas parece-me sempre muito pouco tempo. Enfim, o tempo é sempre relativo e quantificável apenas por um factor: os segundos, minutos e horas. Tudo o resto é absoluta divagação e oportunismo.

Hoje a notícia que me chamou a atenção no rádio foi uma descoberta científica. Vários cientistas nos EUA, com inclusão de uma portuguesa na equipa, descobriram uma zona do cérebro que regula e condiciona o vício do tabaco. Esta descoberta foi feita após um acidente cardio-vascular de um sujeito que fumava cerca de 2 maços de tabaco por dia. Após este acidente, que lhe afectou uma determinada zona do cérebro, o sujeito ficou sem vontade de fumar e inclusivé sem qualquer referência ao vício que o tabaco lhe proporcionava. A equipa de cientistas que descobriram este acontecimento apressaram-se a dizer que ainda vai levar muitos anos até descobrirem um medicamento ou uma forma eficaz de se condicionar e acabar com os vícios. A minha primeira reacção foi de satisfação. Finalmente poderei acabar com o meu vício do tabaco de uma forma pouco penosa. Mas imediatamente a seguir foi de preocupação. Partindo deste princípio todos os vícios e desvios e mesmo comportamentos poderão passar a ser controlados. Vai passar a haver uma desresponsabilização total por parte de cada um de nós, partindo do pressuposto que existe sempre uma forma de contornar e remediar a questão sem qualquer esforço. Basta que "eles" me dêm uma pílula e a coisa volta ao lugar, ou seja, poderei fazer todos os disparates que a seguir existe um antídoto para remediar tudo. Passa a não existir uma noção de causa/consequência. Passa a não haver uma noção de responsabilização pelos nossos actos... Passamos a ser umas marionetes tontinhas, facilmente controláveis e dependentes de alguém que teve 2 dedos de testa para perceber e de facto ser responsável pelos seus interesses. Vamos ver como é que isto evolui. Naturalmente se eu estivesse a morrer por causa o tabaco ou das drogas o meu discurso seria absolutamente diferente.

Como pensamento positivo para hoje deixo a série de TV Dr. House. Mais um produto de televisão que me entusiasma e que dita a nova linguagem de tv que apenas está dependente dela e não aparece como um subproduto subjugado ao cinema. Produção imaculada, originalidade no argumento, construção de personagens verdadeiramente fantástica, com destaque para a personagem do Dr. House. Sinto que estamos a atravessar uma fase de ouro da televisão. As séries, principalmente as séries americanas, são verdadeiramente impressionantes e nada devem ao cinema ou a outro meio. São um formato que de facto se dá bem no meio televisão e com um requinte de produção ao nível das grandes produções de hollywood. O seu formato, estendido ao longo de vários episódios que contam pequenas histórias integradas numa grande história, é absolutamente adequado ao meio tv e pensado para prender as pessoas a este meio frio. Na quietude das suas casas, com todo o conforto circundante e com uma grande produção assente em bases inteligentes, mas sem nunca perder o rumo da comercialização, estas séries estão a revolucionar, lentamente e silenciosamente o meio tv e a criar novas bases para a standarização futura da televisão. Mas não só. Eu vejo estas séries no meu computador, após um download da net. Na verdade a tv foi ultrapassada pelo meu portátil e vejo estas séries no conforto das meus lençois e rodeado de almofadas. Estamos numa fase importante e transaccional dos nossos hábitos de consumo de séries de ficção. Bem hajam estas grande produções. Venham mais...

quinta-feira, janeiro 25, 2007


Que decisões tomar quando somos empurrados contra uma parede? Que tom adoptar quando nos colocam perante uma situação dúbia e que envolve alguns milhares de contos? É neste estado que me encontro hoje e que me confrontaram ontem à noite. A situação é de facto muito dúbia e as evidências que me apresentaram não são tão evidentes assim, tal como as evidências ao meu dispôr também não são tão evidentes assim. O mais preocupante são os valores envolvidos nesta situação dúbia. Há muito dinheiro envolvido e em última análise eu serei o cavalo a abater. Não é uma situação fácil, com risco de uma amizade cair e de me aceitarem uma possível demissão. Vamos esperar que tudo corra pelo melhor. Desta vez até estou relativamente confortável, no entanto isto até pode evoluir para uma situação política. Resta saber que passos irei dar e que estes passos sejam benéficos para mim. É assim que me revejo nos dias que correm. Não gosto muito de me rever assim, mas não consigo ultrapassar esta nova fase de egoísmo e oportunismo relacionado com o meu emprego.
Tenho que mudar esta minha atitude. Tenho que encontrar um ritmo que me permita anular futuras situações como esta e de facto trabalhar em equipa. Estou a atingir um ponto de não retorno e já está a durar há bastante tempo. Tenho que estudar um novo posicionamento, uma nova maneira de estar... e a sua aplicação tem de ser para muito breve.
Hoje o prato do dia das notícias relacionavam-se com o escândalo de corrupção que rebentou na Câmara Municipal de Lisboa a propósito das vendas dos terrenos do parque mayer para a construção do casino. A história anda à volta de uma empresa chamada braga parques que tentou subornar vereadores da camara para que estes terrenos fossem de facto vendidos. Parece que conseguiu subornar 2 do PSD, mas quando tentou subornar o tipo do bloco de esquerda, este denunciou o sucedido. Esta história chamou-me a atenção porque um dos vereadores do PSD envolvidos trabalhou comigo há muitos anos num projecto relacionado com universidades. Já não me lembro de detalhes, mas da sujeita lembro-me perfeitamente quando ela estava a trilhar os seus primeiros passos na política relacionada com a JSD. Na altura achei-a bastante simpática e fazia-me confusão ela ser do psd. Anos depois, mais de 10 anos depois, lá está ela como vereadora da camara e a ser acusada de corrupção.
É engraçado situações como esta. Pessoas que conhecemos estarem a vir a praça pública. São histórias que poderemos contar mais tarde.
O afonso está muito próximo de andar. Já se coloca em pé muito facilmente e já dá uns passos trôpegos em direcção a uma pessoa. É engraçadíssimo. A carolina está mais dedicada a trabalhos intelectuais. Os livros fascinam-lhe e além de estar muito concentrada nas suas ilustrações, dá-nos os livros para as mãos para lhe lermos e comentarmos com ela os seus conteúdos.
Como pensamento positivo para hoje, deixo a culinária. Descobri que afinal consigo cozinhar, ser criativo e divertir-me. Gosto muito de cozinhar para a paula e foi ela quem me despertou para esta nova condição. Na verdade antes nem sequer sabia fazer arroz ou massas. Hoje já tenho um domínio razoável sobre a cozinha e consigo fazer muitas mais coisas. Ainda não estou refinado, é certo, mas adquiri um certo domínio que me permite estabelecer os meus tempos e as minhas misturas de ingredientes. Os meus elementos fetiches na cozinha e que distinguem os meus cozinhados são a mostarda, as alcaparras, a pimenta e a canela.